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Diabete, uma nova epidemia

Salvador - O Brasil é o décimo país com a maior população diabética do mundo, mas deve alcançar o quinto lugar dentro de quinze anos. A previsão é da Fundação Mundial de Diabete, que considera a doença uma epidemia principalmente nos países mais pobres. O panorama e as políticas de prevenção foram discutidos na Conferência Latino Americana de Diabetes, que aconteceu em Salvador entre 30 de junho e 2 de julho.

Hoje, cerca de 10 milhões de brasileiros têm diabete do tipo 2, causada por fatores comportamentais. O aumento da incidência é provocado pelo excesso de peso decorrente da má alimentação e do sedentarismo que atinge 23% dos brasileiros – índice alto se comparado a países desenvolvidos.

Segundo a médica e coordenadora nacional de Prevenção e Atenção Integral à Hipertensão e Diabetes do Ministério da Saúde, Rosa Maria Sampaio Vila Nova de Carvalho, o Brasil está envelhecendo e essa é uma das causas para o aumento da diabete. Outro motivo, de acordo com Rosa, é o acesso mais fácil a comidas industrializadas. “Se antes os estados do Sul e Sudeste tinham mais diabéticos, hoje Norte e Nordeste, com o aumento do poder aquisitivo, estão chegando perto.”

Custa menos comprar alimentos industrializados do que os in natura, mais saudáveis. O médico norte-americano e professor de Medicina Social na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Bruce Duncan, explica que isso contribui para que a diabete torne-se uma doença da pobreza e cresça assustadoramente em países como Índia, Argentina e Brasil. “Podemos dizer que é uma emergência de saúde pública. Na década de 1990 a doença era mais comum na Europa e Estados Unidos.”

A prevenção, que inclui exercícios físicos e mudanças na alimentação, não pode ser encarada apenas como uma atitude individual. “Precisamos de programas e ações coletivas, como a que foi anunciada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária no fim de junho, que estabelece que os produtos com muito sódio, açúcar e baixo valor nutricional tragam essa informação explícita nas embalagens”, diz Duncan.

A diabete está associada diretamente com a hipertensão e, se não tratada adequadamente, causa cegueira, amputação dos membros inferiores, insuficiência renal e pode levar à morte. A prevenção chega a reduzir em mais de 90% os gastos públicos com o tratamento e o uso frequente de insulina, de acordo com pesquisas feitas pela Fundação Mundial de Diabete.

A repórter viajou a convite da Fundação Mundial de Diabete

Entrevista

A epidemiologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Maria Inês Schmidt diz que o Brasil não está preparado para tratar a diabete como epidemia.

Por que a diabete do tipo 2 é considerada uma epidemia?

Ela se espalhou muito mais do que seria o esperado. Entre 20 e 10 anos atrás não existiam tantos casos. Por isso, concluímos que a principal causa não é a genética, porque se fosse não teria aumentado tanto em tão pouco tempo.

E por que houve aumento da diabete comum?

Além da má alimentação, podemos destacar a melhora no transporte público. Parece bobagem, mas as pessoas deixam de andar a pé ou de percorrer distâncias maiores e com isso fazem menos exercício. A obesidade aumenta e aparece a doença. É uma relação direta.

Sobre a dieta, quais os grandes vilões?

Não só o açúcar é perigoso. Alimentos processados, com menos fibras e mais carboidratos, como o pão e o arroz branco, e as gorduras, quando consumidas em excesso.

A prevenção e o tratamento no Brasil estão mais atrasados que nos países desenvolvidos?

Não temos políticas públicas eficientes. Tanto aqui como no restante da América Latina, a preocupação maior ainda é com as doenças infecciosas ou as materno-infantis, que são as associadas à falta de pré-natal e que se desenvolvem mais tarde. Não estamos preparados para tratar diabete como epidemia.

Maria Inês Schmidt, médica e epidemiologista
Fonte: GAZETA DO POVO – PR


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